bala perdida: Lembras-te de mim, ó Xavier

sexta-feira, abril 28, 2006

Lembras-te de mim, ó Xavier



A expectativa era muita ontem, para ver que filme era o Coisa Ruim, cujo trailer prometia uma espécie de The Village na Beira Baixa. O TAGV estava esgotado e preparado para, como dizia alguém no público, atrás de mim, "se borrar todo". Depois de apanhar com duas superlativas curtas, já da praxe nestas sessões da noite nos Caminhos, entra o genérico do filme, ou melhor, rebenta-nos na cara uma sequência prodigiosa de imagens (prodigiosas), ambientadas por um tema instrumental (prodigioso), cuja beleza e originalidade não vale a pena descrever, por isso deixo só uma palavra: prodigioso.

Depois destra entrada à campeão (ao que parece, cortesia de uma produtora de animação chamada Objectivo 49, que deve ter umas ligações com o Fincher, concerteza), há um primeiro contacto com uma aldeiaizita, daquelas mesmo pequenas, com bosta de bovino a pavimentar as ruas e tudo, onde vemos um gajo de barba a cortar lenha com bastante convicção. Quando faz uma pausa na labuta, sente que se passa qualquer coisa no mato e como não é gajo de modas (e tem a colecção do shyamalan em casa) avisa o filho para se pirar, que não devem tardar muito os seres daquela cor que não se pode dizer o nome: "ó Zé, vai pra dentro". As semelhanças com o filme do discípulo do spielberg acabam aqui. A história desenvolve-se em torno de uma família citadina que, em busca de paz e harmonia, decide mudar-se para o interior profundo, para uma casa que pertencia à família do marido, um biólogo que trabalha para o Instituto de Conservação da Natureza. A família está um bocado contrariada com a mudança e há pontas soltas nas relações entre os seus elementos por resolver. No fundo, como já diziam alguns bravos comentadores de um pasquim que tem um suplemento semanal dedicado às artes, o filme é sobre uma família em desagregação, desvendando-se (ou sugerindo apenas) ao longo da narrativa os segredos sujos por detrás das clivagens entre os seus membros (um deles é particularmente sujo e acrescenta uma densidade necessária à construção da história). A questão dos mitos, lendas e superstições à solta na povoação deriva desses conflitos internos que abalam a família, com raízes já antigas, descobrimos mais tarde.

Desde o início que topamos que este pessoal da publicidade domina os meios técnicos com uma mão atrás das costas a fazer tricot e a outra a fazer um manguito ao amigo Oliveira e ao cinema português em geral. Enquadramentos perfeitos, movimentos de câmara suaves como um Barca Velha de 82, fotografia calibrada ao detalhe e os clássicos focados e desfocados, que ficam sempre bem em película. A construção do lugar faz-se através da escolha dos lugares-tipo (igreja de pedra, taberna escura, caminhos de terra, a casa, etc) que estaríamos à espera de encontrar, mas o ritmo apressado inicial, falho de nuances que poderiam enriquecer este retrato-robot, não nos permite entrar verdadeiramente dentro do sítio como gostaríamos. Aliás, durante todo o filme, o ritmo nunca contribui muito para o fluir de umas cenas para as outras, prejudicando o impacto de muitas delas e a construção da história em geral. A direcção de actores também não é perfeita, nomeadamente quando há diálogos, que os personagens parecem recitar directamente de um livro que têm à frente, funcionando vezes demais como uma muleta para explicar questões narrativas (quando se podia dizer menos). O elenco de secundários parece estar mais dentro do papel: a empregada da casa - tem uma fala, o resto são só rezas - os dois trabalhadores do ICN são uma mais-valia para a história (apesar de um deles desaparecer a meio do filme sem explicação - não tinham dinheiro para lhe pagar mais uns dias de rodagem?); o padre mais velho tem bastante carisma; o filho mais novo também é bastante credível no seu papel.

A partir da segunda metade (houve intervalo) o filme começa a levantar vôo e a ganhar uma consistência que não vinha demonstrando, avançando com segurança até ao desenlace final. Pelo meio há o recurso a alguns flashbacks, que estão muito bem metidos (nada de tretas a preto e branco, portanto) e onde até aparece, num cameo, o amigo Paulo Branco. Também há umas visões que os personagens começam a ter (umas estúpidas, outras mais relevantes). O clímax final chega sem aviso (o que é bom), numa colagem de cenas, muito bem filmadas e estruturadas, que vai ganhando lentamente contornos mais fortes até partir tudo. Aqui (como no resto do filme, aliás) a música do grande Jorge Coelho tem um papel determinante na carga dramática que a cena transmite. Jorge, se estás a ouvir isto, deixa a m**** dos Mesa a fazer música do p**** e dedica-te às pistas sonoras, que o pessoal já está farto das partituras orquestrais grandiosas de johnes williames e quejandos (o gajo do Lost também é chato como a potassa). Quanto ao final propriamente dito, parece-me estar bem resolvido, se não gostarem muito sempre podem propôr um director's cut pró dvd daqui a uns anos, em que o pessoal acaba todo a cantar e a dançar como num musical e alguém diz, acenando, "Adeus! Até à próxima!". Aquele último plano do cruzamento é que não tem muito a ver.

Concluindo: parece que o cinema português está numa de fazer filmes a sério, em vez de delírios onanísticos financiados a fundo perdido pelo ICAM, como nos últimos cem anos (concedo que há algumas excepções, poucas). Isso é bom. Afinal, foi por causa disto que pessoas como eu andaram a fazer o 25 de Abril.

Vão ao site do filme, é bué da bom.

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7 Comments:

Blogger juanito said...

O filme de Ruim não tem nada (a não ser a mencionada bosta no chão da aldeia). É verdade, grande filme e que grande genérico (eu apostava no genérico num possível mas inconcebível embate). Para mim o filme foi um bocado o revés do que foi para o Mariache. Achei a primeira parte muito boa (ou seja prometia muito, porque as coisas ainda estavam por revelar e não encontravam na lógica grande parceira), e no intervalo até comentei com o Mariche, "tive medo que o diabo me tocasse no ombro". Vencido o medo, lancei-me novamente para a cadeira a espumar-me de espectativa para ver se o diabo se decidia a aparecer. A segunda parte, como eu estava louco de expectativas exageradamente vorazes, foi o desenrolar normal para as premissas criadas na primeira. Gostei bastante do filme, que prometia muito no início e que depois se desenrolou de uma forma perfeitamente viável e ordeira. Vejam. E já. É gajo de ganhar aquilo.

domingo, 30 de abril de 2006 às 21:58:00 WEST  
Blogger juanito said...

Lançados os resultados dos Caminhos do Cinema Português, é inevitável sentir-se o sorrizinho maroto a formar-se nos lábios dos B.P.'s aqui na redacção. O Alice ganhou o prémio de melhor filme. O Odete levou a menção honrosa. O Coisa Ruim levou o prémio "Cidade de Coimbra". Resumindo o Marquinho o J.P. Rodrigues e os outros dois (o irmão do bicho-que-é-pivô-na-SIC e o Frederico Serra) arrecadaram merecidamente (ou seja sem cheiro a esturro, próprio nas entregas de prémios dos festivais portugueses, e como não quero ser acusado de insinuações maldosas só vou deixar aqui uma palavrinha: Frostbitten) prémios pelos filmes que realizaram. Claro que não é a mesma coisa que ir à Riviera Francesa e sair de lá com Palmas de Ouro debaixo do braço, mas é mais um prémiozito para ter em cima da lareira (ainda bem que os gajos não se lembraram de atirar os ditos para o público "à la Mourinho", porque eram gajos de rachar uma ou outra cabeça ao meio). Tive pena de não estar lá na cerimónia de encerramento, mas Aveiro tem-me oferecido motivos suficientes para me arrastar por aqui: praia, Clandestino Bar e Oita (que nesta semana é o mesmo que dizer Good Night and Good Luck).

See ya arround. 25 de Abril Sempre! (eu não sou comuna, e... AH!, Mariache, já percebi porque é que gostaste tanto do filme do Clooney).

terça-feira, 2 de maio de 2006 às 00:28:00 WEST  
Blogger El Mariachi said...

prémio "cidade de coimbra" é um nome um bocado manhoso, digo eu. estava visto que o Alice ia limpar aquilo.
ouvi dizer que em aveiro o surf é do melhor.e têm o oita, que passa filmes decentes, se bem que com 3 meses de atraso.
viva s.bernardo, cacia e a glória.viva o élio maia e o executivo de direita (apesar de não terem feito frente às chaimites, naquela madrugada de 74, como eu).

terça-feira, 2 de maio de 2006 às 12:27:00 WEST  
Anonymous Anónimo said...

amusing!!!

quarta-feira, 3 de maio de 2006 às 16:00:00 WEST  
Anonymous Anónimo said...

El filmón "Coisón Ruinzón" es espectacularón, Odetón es muy gayzón pero todavia no lo he vistón
Esto blogón necesita El Sidón por eso Mariachón e Juanitón le hagan el fel...zón que le fué prometidón!!! Que mas puede dizierón
Esto es el regreso de yo... Ramón... El Poetón...

quarta-feira, 3 de maio de 2006 às 20:34:00 WEST  
Blogger El Mariachi said...

eddmartin: não fales de coisas que não sabes, unexplained feeling of joy, qué isso pá? põe-te a andar ou levas com um pontapé no traseiro, que college degrees, há muitos por aqui.25 de abril sempre, fascismo pro c********!

quinta-feira, 4 de maio de 2006 às 12:03:00 WEST  
Anonymous Anónimo said...

Keep up the good work » » »

sábado, 3 de março de 2007 às 04:19:00 WET  

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