Chamavam-lhe "o Zodíaco"

Caro Jone, permite-me discordar, ou talvez não.Cinco anos à espera para pôr as vistas em cima de qualquer coisa em celulóide do mestre Fincher e ele decide atirar-nos com outro filme sobre um assassino armado em espertola. Ninguém estava à espera de um Se7en II (possível título para uma sequela, que concerteza alguém do calibre de um Brett Ratner ou dos meninos do Saw irá realizar algures nos próximos anos, pra fazer render o peixe: Se77en - John Doe Returns From the Land of the Dead and Brings Elvis Along for the Ride) e confirmou-se isso mesmo, aquando do visionamento do Zodiac.
Já o tempo que mediou entre o Clube da Batatada e o Sala de Muito Medo e Algum Pânico tinha custado bastante a passar. Um gajo contava todos os segundos num crescendo de ansiedade desde aquele momento em que saíramos da sala de cinema, ainda com o cérebro feito em puré depois de termos levado com os pós-modernismos do Palahniuk filtrados pelo olhar matreiro do mestre Fincher. Tínhamos aprendido, entre outras coisas, a fazer bombas com uma parte de glicerina e duas de Sunquick; a mastigar raíz de valeriana para curar as insónias; a vender roupa em segunda mão roubada para ganhar uns trocos; a mijar para dentro da sopa, porque sim. O Ed Norton e a Helena Bonham-Carter a fazerem um par de maluquinhos perfeito e, mon dieu!, o Brad Pitt até sabia actuar, por uma vez na vida!
Chegou depois o tal filme, inspirado mais ou menos no Hitchcock, em que o mestre Fincher restringia a sua câmara maluca a uma casita onde a Jodie Foster e uma catraia qualquer tinham que se haver com uns malandros duns gatunos. Era um passo atrás em termos de espalhafato (que tão bem funcionara no Clube e no 7) e o mestre Fincher experimentava as maravilhas da condensação, também com bons resultados. O filme não deixou, porém, de ser uma semi-desilusão. Pensávamos ter descoberto no Fincher um ponta-de-lança do barroco cinematográfico (assim tipo um Gianlorenzo Bernini dos filmes) mas ele afinal quer é atirar-se a tudo. Até é boa ideia alternar filmes "grandiosos" com projectos mais "simples" (o Shyamalan podia aprender qualquer coisa com isto, para não voltar a mandar bosta à parede e depois filmar o resultado, vide A Senhora das Águas), mas um gajo tem que ter sempre um tipo de quem possa dizer:
- É o melhor realizador de sempre, ó pá!
(depois, segue-se uma série de informação sobre o gajo, assim tipo conversa para impressionar garotas com a nossa sabedoria infinita)

Tudo isto para enquadrar os meus sentimentos em relação ao último tomo da filmografia do mestre Fincher. O íncio do filme promete muito, com a primeira de várias recriações dos homicídios do gajo, o Zodíaco. O tom seco, natural e a extrema minúcia na composição visual das sequências dos crimes empresta-lhes uma aura hiper-real (cultivai-vos, ide ler o Baudrillard) que as torna nas cenas mais extraordinárias do filme. Depois, entra em cena o Donnie dos Coelhos, no papel do cartoonista a quem se deve isto tudo (o mito, o livro, o filme), menos a parte dos assassínios. Um gajo olha pra ele e está sempre à espera de ver o coelho gigante aparecer a espreitar-lhe por detrás do ombro, ou a fazer cornos (com as patas) pelas costas ao Bob Downey Junior. Ele não tem culpa de ter sido o protagonista de um dos filmes mais bestiais dos últimos mil anos (o Donnie dos Coelhos), mas ao menos podia mudar de penteado, ou de expressão de alucinado, para o pessoal perceber que ele não faz sempre o mesmo personagem. O já referido Bob D. Jr. repete, pela nonagésima vez, o papel de drogado/bêbado/olheiras/roupa marada, o que apenas prova o que toda a gente já sabia: ele é mesmo assim na vida real, um bandalho. Quem salva o triângulo central do elenco é o grande Mark Ruffalo, um gajo que já entrou em filmes do pior e do melhor e deve ter aprendido através deles que ser actor é deixar-se apagar por detrás do papel que lhe dão. A sua entrada em cena está, aliás, ligada ao momento em que o filme verdadeiramente arranca, a sequência do assassinato no táxi e posterior investigação. Quando o Ruffalo e o seu parceiro (o Dr.Greene do Serviço de Urgência a fazer uma perninha na polícia de San Francisco, porque a vida está má, até prós médicos, e há que pagar as contas do tratamento anti-cálvicie no fim do mês) chegam à cena do crime, o ritmo (moroso) do filme aumenta exponencialmente e parece que nós estamos também ali, naquela esquina de Presidio Heights, à cata do Zodíaco.
Os primeiros dois terços do filme seguem com mais atenção a investigação policial, para no fim o interesse se deslocar para a obessão pessoal do Donnie dos Coelhos. O momento que separa estes dois tempos é a cena do interrogatório ao suspeito principal, outra cena muito conseguida, principalmente pela subtileza com que o actor que interpreta o possível culpado constrói o seu papel, deixando escapar certos pormenores que o parecem comprometer aos olhos da justiça. A partir daí o filme vai perdendo gás, ou saltando datas a um ritmo que nem sempre nos deixa discernir a evoulção dos acontecimentos, ou enveredando por pistas laterais com pouco interesse. O que salva muitas vezes o filme nesta fase final é - além das vezes em que, distanciados da narrativa, reparamos que a fotografia é bestial (cortesia do Harry Savides, de quem se falou há algum tempo, por ocasião de um texto sobre o Elephant), que a reconstituição do ambiente de San Francisco dos anos 60/70 é poderosa, ou que a selecção musical é do best - é um humor seco e certeiro, que aparece quando menos se espera, no meio de toda esta seriedade.

Concluindo, Zodiac é um filme que consegue, durante a sua hora e meia central, agarrar numa série de acontecimentos reais e capturar-lhes a essência, colocando-nos a nós também por momentos no centro da caça ao homem. É um grande filme, mas parece ir perdendo o rumo à medida que o Zodíaco vai desaparecendo do radar e que o Donnie dos Coelhos prova não ter caparro para levar o filme às costas sozinho (já agora, o papel da Chloe Sevigny como mulher dele, também não acrescenta nada ao filme). A sequência que encerra o filme é uma tentativa de acrescentar algum estrondo no final através de uma conclusão que desfaça todas as dúvidas, mas a história do Zodíaco é precisamente o contrário de uma narrativa fechada. Percebe-se o gosto pela elipse, terminar o filme com a mesma personagem que o inicia, mas o mestre Fincher devia guardar os finais estrondosos para filmes que precisem mesmo deles, como o Se7en e o Clube da Batatada.
Tenho dito.
(conte as vezes que foi utilizada a expressão "mestre Fincher", multiplique o resultado por 6, substitua os algarismos pela letra correspondente e voilá, você descobriu o nome do verdadeiro Zodíaco!)
Tenho dito.
(conte as vezes que foi utilizada a expressão "mestre Fincher", multiplique o resultado por 6, substitua os algarismos pela letra correspondente e voilá, você descobriu o nome do verdadeiro Zodíaco!)
Etiquetas: opiniao, tiros nos filmes