
Devo dizer que desde que vi, e por ordem de grandeza, o 2001 Odisseia no Espaço, o Blade Runner, e o A.I., não via um filme de ficção científica que me fazia remexer tanto na cadeira como o Children of Men. Dois terços da equipa BALA tiveram o privilégio de na mesma sessão ver, aquilo a que numa linguagem vulgar, se poderia denominar “um filme do caraças”, e foi. Mesmo. O filme é protagonizado pelo Clive Owen, esse actor que já foi o “ex-próximo James Bond” até alguém olhar para o Daniel Craig e achar que este tinha uns olhos mais, sei lá, azuis.
Por falar nisto, aproveito para abrir aqui um parêntesis sobre o universo Bond. O Rei Artur não se meteu nesse mundo, renunciou – ou ficou privado, não sei bem – de guiar BMW´s topos de gama, filmar em praias paradisíacas e, o mais importante, ter relações – fictícias claro – com mulheres oriundas de laboratórios de manipulação genética – porque esta é a única explicação possível para encontrar seres humanos perfeitos, daqueles que aparecem nos 007´s – o Clive Owen acabou por ser beneficiado, e isto não é uma piada relacionada com o facto de ele não vir a receber milhões de dólares para fazer as coisas acima mencionadas, é simplesmente uma constatação do simples facto de que a personagem fica para sempre, ou pelo menos durante muitos anos – inevitavelmente agregada ao actor. Perguntem ao Pierce Brosnan. O gajo vai ser o 007 até ter 90 anos. Um bocado como o Sean Connery que já deve andar lá perto, e ainda há quem o chame de “agente secreto”. A questão é simples e depende de como se encara a profissão (de actor). Se um tipo acredita verdadeiramente na arte nobre da representação e quer construir uma carreira com base no desafio sucessivo e permanente que é o de conceber uma personagem a partir de um guião que lhe é entregue, filme após filme, ou se é do tipo que encara a profissão como o Tom Cruise que pensa que ser actor, é “sorrir e decorar umas falas enquanto se faz uns telefonemas”. “E ser burro”. Ia-me esquecendo desta última. Sem querer fazer juízos partidários de valor, até porque podia cair no ridículo de estar aqui a defender a Representação ao invés de optar pelo caminho do Demónio, que inclui Mulheres, Dinheiro, Carros, Coca e alguma Luxúria, que acaba por ser a vidinha do 007 – da personagem e do actor – quero somente expressar o meu apreço por ver o Clive Owen “recusar” este mundo do Demo porque, afinal é um gajo que acredita na sua profissão. Se eu fosse actor, tenho que admitir, optava pelo Demo. Disse.
Voltando ao filme “do caraças” Children of Men, que foi adaptado e magnificamente realizado por El Alfonso Cuarón e que, para mim, fez uma excelente escolha ao entregar este papel ao Clive Owen. Não sendo uma performance excepcional, faz realmente um belo papel, e mostra a quem tinha dúvidas e não viu o Sin City, que sabe representar. Claro que teve a, bela, ajuda Julian Moore que infelizmente não é muito prolongada, mas que nos minutos em que habita a tela, é simplesmente maravilhosa e espalha aquela sensibilidade erótica, que faz um tipo pensar se vale a pena casar com outra mulher que não ela. Além destas duas pérolas há um conjunto de personagens secundárias que são fundamentais para o desenrolar da intriga, e que são, também elas, muito bem interpretadas. Desde o hippie-performance-maravilha-do-M.Caine de 65 anos que vive na floresta até à refugiada cigana que dá uma mãozinha aos protagonistas, passando por um grupo de refractários que têm uma revolta prestes a implodir liderada pelo Chiwetel Ejiofor (sim fui copiar o nome ao IMDB por razões óbvias) que tem dado mostras de ser um gajo que “dá uns toques” no que toca à representação.

Tudo isto em Inglaterra num futuro próximo. A premissa consiste na impossibilidade das mulheres conseguirem engravidar, e por isso a sobrevivência humana estar em risco. O filme começa em Londres, com a tecnologia uns furos acima da de hoje, os automóveis futuristas estão muito bem caracterizados - não há extravagâncias do ponto de vista estético - e existe uma intenção de apresentar um futuro sujo e caótico, assim como o resto do cenário urbano que é inteligentemente limitado, devido certamente a restrições do orçamento, mas que por isso mesmo, obrigou a encontrar soluções pragmáticas como, por exemplo, a opção de filmar grande parte do filme com a câmara ao ombro. Isto que agora anda muito na moda, mesmo em filmes de grande orçamento, e estou a lembrar-me do Missão –Impossível-3-camera-man-com-doença-de-parkinson, que teve um resultado lamentavelmente desastroso. Aqui isso funciona na perfeição, e ajuda bastante a dar a sensação de realismo, devido também à própria natureza do filme, que acaba por ser uma fuga contínua em espécie de perseguição por um bem maior, que possivelmente seria a salvação para humanidade.
Depois há que dizer, o filme tecnicamente anda muito perto da perfeição. Os efeitos especiais são tão bem usados e concebidos que fazem o que, em primeira instância foram inventados para fazer, tornar, neste caso, o futuro credível. Nada de aberrações gráficas produzidas em massa à toa, só porque alguém da produção se lembrou de comprar o Maya ou o 3D Studio. Porém o que o filme tem de melhor são os planos sequência. Porque todos estes elementos acima mencionados conjugam-se na perfeição criando sequências fantásticas de puro cinema, em que coabitam representações muito acima da média, enquanto se assiste a um desenrolar da acção que é quase sempre surpreendente, aliado a uma fluidez de câmara excepcional, tudo isto afinadíssimo na pós-produção, com o acrescento – que neste caso, como já tinha dito, é isso mesmo – de efeitos especiais pontuais. Alguns eram pró-estéticos ou executados no local, o que amplificou ainda mais o nível de dificuldade da rodagem, e que valoriza bastante o filme.
Pena que acabou tão rápido. Fico à espera que este final de ano traga mais alguma maravilha cinematográfica e estou a falar mais especificamente em alguns objectos que tardam em aparecer neste paízola operário-burlesco, como os novos filmes do Aronofsky do Richard Kelly e o do Iñarritu (The Fountain, Southland Tales e Babel, respectivamente). E claro, o da Sofia Cópula que apesar de já ter estreado em território luso, ainda é preciso gastar quase 15 contos para ir vê-lo – no caso de não se viver numa das duas grandes áreas metropolitanas – que corresponde à despesa de pegar no veículo e pagar as portagens e gasolina para ir e vir (e ver o filme no entretanto).
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