Beowulf 3D

Hopkins conspira com Beowulf, em ambiente 3d, como gamar o ouro a Zemeckis
Robert Zemeckis, o criador da trilogia infanto-juvenil mais fixe dos anos 80, o Regresso ao Futuro, parece andar, nos tempos de hoje, distanciado de qualquer contacto mais íntimo com a realidade. Frequentemente Robert Zemeckis é visto nos arredores da sua casa a dialogar sozinho, e a questionar os degraus de acesso à piscina, como é que perdeu o jeito para a coisa. Desde já, fica uma palavra de amizade e de incentivo profissional para com o outrora quase genial, Zemeckis: deixa o cinema e dedica-te à pesca submarina.
Numa altura em que se fazem filmes de bradar aos céus, usando a tecnologia informática em prol de uma valorização qualitativa de um argumento, Sin City de Robert Rodriguez, 300 de Zack Snyder e, o inevitável Senhor dos Anéis de Peter Jackson, aparecem estas descontroladas maluqueiras cibernéticas de Zemeckis como Beowulf. Beowulf é basicamente um catálogo que serve para explorar, de uma forma bastante assumida, o potencial, ainda algo limitado, de uma forma diferente de consumir cinema: a tecnologia de visualização 3d (com o auxílio dos magníficos óculos de massa grossa à Woody Allen). De imediato há 3 questões fundamentais que se levantam, mais pertinentes ainda do que a questão da existência de Deus, ou do mau feitio de Scolari: “mas porquê chamar a isto um filme; porquê pagar 7 euros para o ver; e terá Zemeckis enlouquecido?”
No abstracto o filme tem praticamente todos os ingredientes para ser um bom produto cinematográfico, se nos alhearmos à partida que depende da projecção com efeito tri-dimensional, que apenas está disponível em alguns cinemas. A começar pelo enredo, que é baseado num poema histórico escrito por um desconhecido, mas que parece ter influenciado Tolkien na sua obra prima, passando pelos actores, Anthony Hopkins, Angelina Jolie, John Malkovich, e o menos conhecido, Ray Winston (papéis maioritariamente secundários como em Rei Artur e Cold Mountain), a acabar (e porque não) no próprio realizador (Zemeckis) que infelizmente, além de ser bastante provido na arte ancestral de caçar pardais, anda igualmente a perseguir o sonho de destruir o crédito adquirido em produções interessantíssimas como Quem Tramou Roger Rabbit?, Regresso ao Futuro e aquele que deveria ter sido o seu último filme, Forrest Gump.
À parte de tudo isto, existe a vontade avassaladora de Zemeckis em criar “algo novo” usando “tecnologias do futuro”. Zemeckis não sabe, mas o valor real de um filme não se baseia na quantidade de tecnologia usada para a sua produção, mas sim na coerência do produto final. Este infeliz Beowulf existe, apenas e só, para mostrar que é possível fazer um filme em 3 dimensões usando sensores corporais e pondo 1 milhão de gajos a trabalhar em texturas de pele humana que em cada centímetro quadrado têm mais pormenores do que o projecto de execução do Guggenheim de Bilbao. Todavia grande parte da população mundial que habita em países desenvolvidos, já viu o Senhor dos Anéis e a maravilha digital intitulada Gollum, e claro, os filmes da Pixar e da Dreamworks. Consequentemente é do domínio público que, sim, é possível fazer filmes extra-ordinários em 3d. Zemeckis é o único ser humano à face da terra que ainda desconhece este facto.
Para acabar, ficam aqui alguns conselhos de amigo, para o amigo Zemeckis:
1) Zemeckis, dedica-te à pesca submarina e, quando estiveres lá no fundo, experimenta tirar o tubo que liga aí à garrafa que tens às costas;
2) agora mais a sério,tiras umas férias em África, deixas o GPS em casa e aventuras-te numa travessia solitária ao Sahara, a pé, para mostrar que definitivamente és mesmo um gajo que gosta de “desafios”;
3) tenta atravessar os Estados Unidos pela Estrada 66, de Los Angeles até Nova Iorque de Smart, em contra-mão, enquanto lanças foguetes dentro do carro para comemorar os 25 anos da estreia do Back to The Future;4) constrói um DeLorean e viaja até ao futuro, para verificares que, o que andas a fazer, mais cedo ou mais tarde, te vai atirar para o desemprego de vez; aproveitas e ficas por lá a divagar em Washigton onde, por essa altura, há um atentado de 4 em 4 segundos;
5) ou então esquece tudo o que está escrito atrás, e voltas a escrever outra trilogia, tipo Back to The Future, mas mais fixe ainda, e protagonizada pelo forever young, Michael J. Fox (mas deixas outro gajo realizar).
Zemeckis em 3 dimensões. 3000 mil anunos do M.I.T. trabalharam neste modelo digital durante 15 anos.
Etiquetas: opiniao, tiros nos filmes